Havia sinais a indicar o caminho do ódio. Parecia um caminho longo, não doloroso, mas longo. A distância dos teus olhos aos meus fazia desse caminho longo. Houve dias em que acreditei ser doloroso, em que acreditei que todas as minhas ligações contigo seriam dolorosas, mas nunca acabou por ser dor. Como um ser humano comum, habituei-me. O meu hábito de te odiar manteve-se e o caminho prolongo-se. Era infinito, acreditava. Era tão infinito como o negro envolto no teu nome, quando soado aos meus ouvidos, tão infinito quanto o gelo que cerravas nos teus olhos. Parecias tão fria. Dentro desse gelo, que nada parecia poder penetrar, não sabia ler nada. Eu nunca gostei de ler coisas frias. Sempre que abro um livro quero algo que aqueça a alma, que me faça esquecer a realidade, tornando o meu mundo imaginário mais quente. Eu imaginei que os teus olhos, para mim, fossem sempre gelo. Toda tu, mesmo o teu sorriso desconhecido, era inverno.
Eu não gosto do inverno, mas gosto da chuva. Eu não gosto do inverno, mas gosto de acender a lareira. Um livro, para mim, é como uma lareira. Nada sabe melhor que o quente de uma manta, o quente da lareira numa noite de inverno. Nunca soube que também tu podias aquecer numa noite de inverno, por isso mesmo o caminho era longo. A minha pouca esperança, ou nula, de que fosses também tu tão quente quanto um livro ia-se perdendo ao mesmo tempo que o caminho parecia não ter fim. Imaginava eu o meu ódio um caminho sem fim.
Dentro do caminho, dentro das tuas ausências prolongadas e, na altura, adoradas, eu nunca quis acabar o caminho. Tinha poucas forças. Não queria derreter um gelo inquebrável. Tu também talvez tivesses poucas forças. Tu também talvez não derreter um gelo, que não era inquebrável. Os teus olhos eram esse gelo. O teu sorriso nem de gelo se fazia. Pedra. O teu sorriso era pedra. Porém, tanto tu quanto eu sabíamos que, aquando do derretimento do gelo que cobria os teus olhos, a pedra também acabaria por cair. Nesse dia, nós sabíamos, que o caminho teria um fim.
Quando o dia por fim chegou, o gelo derreteu, a pedra caiu. O infinito do caminho quebrou. Tu passaste a ser verão e, de ti, surgia calor. Do teu sorriso surgia calor e, mesmo no verão, eras como uma lareira a aquecer a alma, do imaginário que crio. Por vezes tenho dúvidas se tu, aquela pessoa para quem escrevo, não será também só imaginário, mas também tenho a certeza do calor de ti, como livro, como lareira. É isso mesmo que me faz crer que o caminho, mesmo quando julgamos infinito, tem um fim à vista, mais próximo dos que nós mesmos consigamos imaginar. Eu aprendi isso nas tuas histórias que, com calma, fui desvendando. O gelo não é para sempre e o calor surgiu como labaredas dos teus olhos. A pedra pode partir, pode cair e o teu sorriso ficou mais puro que diamante. O teu sorriso ficou mais brilhante que diamante. Foram estes pequenos ensinamentos que te fizeram livro e, hoje, verão, sem precisar de lareira, eu gosto de sentir o teu quente, na alma. E, hoje, verão, sem precisar de relembrar o caminho, eu gosto de sentir que o infinito acabou. O infinito deu lugar à eternidade. A tua eternidade prende-se à maneira como entraste, à maneira como ficaste e à maneira como nunca saberás ir embora. Assim, mesmo que o verão seja inverno, quando eu precisar de calor, saberei ter-te aqui. Assim, mesmo que o verão seja inverno, saberei que o gelo quebrou, a pedra caiu, que o calor aumentou, que o inverno fugiu. E nestas pequenas frases encerro ensinamentos de vida.