Os meus outros olhos #6

Volta o tempo de tirar tudo da secretária. Volta o tempo do cheiro a livros novos, de dizer à família que nos vamos aplicar enquanto nem nós próprios conseguimos perceber o que é que quer dizer isso. Nós prometemos e quase que acreditamos que vamos fazer os trabalhos de casa todos, que vamos acordar cedo para chegar a horas e deitar tarde para ter 18 num teste. Para muito poucos isto é realidade. Nós pensamos, quase acreditamos mas não conseguimos entranhar. Daqui a pouco tempo já pensamos: trabalhos de casa? o que conta é o teste. E depois vêm o stress de dizer que não fizemos, vem o medo que sejamos os únicos a não os ter feito.
Ora, Setembro é sempre, sempre um mês de promessas. 
Entre outros, Setembro é o mês das novidades. Para muitos, um novo ano, para muitos nova turma, nova escola, novos livros. O cheiro a novo dos livros é indiscutível o mais amado ou o mais odiado. folheamos e pensamos: Eu vou ter de saber isto? perguntas parvas quando as respostas são vagas. Setembro traz disto, traz dias de café e noites na rua arruinadas por uma manhã a vaguear por salas que ainda não decorámos, por livros que ainda não estão desenhados e por cadernos limpos. Traz o fim de férias e isso é sempre um pesadelo, tira-nos sempre o sono.
Setembro é assim, um mês diferente, por isso, depois de uma ausência prolongada de responsabilidades, de escola, de noites a estudar, de testes, apresento-me aos professores, à turma. Apresento-me pronta a não cumprir as promessas que todos os anos faço, apresento-me, de novo, pronta para escrever naquelas noites em que o sono não vem e ficou parado nas noites que passávamos no café, sem Setembro à vista.

Silenciosamente

São gestos. E sento-me à tua frente, num inconsciente que alimento, olho-te como um objecto estranho de conhecimento. O conhecimento é simples, eu quero-te escrever coisas simples. Eu só quero que isto seja simples, mesmo me sento à tua frente. Não te falo, gosto mais das tuas palavras, do fôlego do nosso silêncio. Silêncio. É nesse silêncio que batemos palmas ao mais bonito espectáculo que algum dia produzimos, que algum dia pudemos apreciar. Nós apreciamos, sentadas num banco qualquer, numa qualquer rua e silêncio. E nos silêncio somos gestos. Somos cores. Somos tudo. Somos um pouco de um história. Sou um pouco de ti. Mesmo querendo isto simples, o silêncio complica. Somos complicadas ali sentadas, penduradas por gestos simples. Somos estes gestos simples, dentro da complexidade com que te escrevo. Sentada à tua frente, sim, sou simples, porque não falo, não escrevo. Quando és tu, sentada à minha frente, sim, és complexa. Tens em ti as cores todas do mundo, os silêncios todos mais complexos, as palavras mais complexos. E sento-me à mesma à tua frente e sei que o silêncio é nosso. O teu sorriso é o nosso silêncio que eu desenho nestas palavras, quando estás sentada à minha frente. E o teu sorriso são gestos, é silêncio e tu estás sempre sentada à minha frente, num banco qualquer, numa rua qualquer, pendurada pelo silêncio, no meu coração, também ele, em silêncio.

Eclipse

Mesmo sem te perguntar o nome sabia. Não perguntas porquê ou porque não, mas eu sabia. Eu não te perguntei se querias. Eu não te pedi autorização. Eu não te conhecia, mas eu sabia. Estas letras provam-no, eu sabia. Eu sabia tão bem quanto as pessoas que não me acompanham nesta viagem. Não tenho ninguém ao meu lado, mas eu e elas e o céu sabíamos. Mas não te perguntei o nome porque eu sabia, não o teu nome, mas eu sabia que eras um livro e o teu nome não interessava. Certo é que agora causa a sua vibração em mim, o teu nome, quando o oiço. Mas eu sabia que eras livro, que o teu nome, em mim, ia ser livro, antes de saber o teu nome. Eu sabia, percebes? Vês quando a lua se eclipsa e o sol? vês quando as pessoas moram e fica sempre a alma? Vês quando se parte um vidro e se transformam em enormes pedaços desse mesmo vidro? Eu sabia que tu ias partir esse vidro e que dele viriam milhões de pedaços. 
Eu sou um desses pedaços que ninguém soube limpar, antes mesmo de saber o teu nome. Sempre fui um pedaço que se esquecem, indiferente, mas acabo sempre por ficar no chão e, alguém, algum dia, me virá a descobrir. Tu és como eu: quando o teu olhar se partiu em mil pedaços de emoções - quando o vidro do teu olhar me dizia que não tinhas sequer coração. Contudo e ao contrário de mim, tu sempre tiveste muitos a descobrirem-te e nunca soubeste ser esquecida. Agora tu também és um desses pedaço de vidro, a partir do momento em que te disse a existência destas letras. Eu sabia que tu ias gostar - ou mentes bem. Vês? eu sabia que ias gostar, mesmo antes de saber o teu nome que agora causa esta vibração em mim. Mesmo antes de saber que eras livro, quando eu duvidava do teu coração, quando o vidro não queria partir - ou tu não o querias partir - eu sabia. E não me perguntes como é que eu sabia, porque nem eu sabia que sabia. Só depois do vidro partido, dos pedaços de emoções tuas pelo chão é que eu soube que realmente sabia. Agora pouco mais sei do que essa vibração do teu nome, do que essa reacção perante a revelação destas letras. Agora pouco mais sei do que livro, do que vibração, do que livro. Pouco mais sei do que tu, sem ser que a lua se eclipsou e o sol, que as pessoas morrem mas fica-lhes sempre a alma, fica-nos sempre a alma. Pouco mais sei do que o mundo e da vibração que um só nome causa. O teu nome. Mesmo sem saber o teu nome, eu sabia, livro.

Balas

Quando quero fugir de mim, da realidade, das sombras e até do sol. É cíclico, eu gosto do sol, da realidade, das sombras, mas tenho necessidade de fugir. Gosto de me refugiar e aí afogo a cabeça sobre um livro. Quem diria que esse mesmo livro serias tu, este que te escrevo, o que o teu sorriso se revelou. Decerto as letras são mais complexas, eu sei que sim, mas eu gosto de desvendar coisas que já me surpreenderam. 
Sempre que abro um livro, sobre qualquer assunto, surpreendo-me sempre. É incrível o poder das letras, mesmo que suaves, mesmo que balas. Neste momento, estas palavras, neste coração, são balas. Fugiram de uma arma que eu não vi e penetram o corpo. Matar não me sabem, mas a ferida é larga, dura e em carne viva fica. Sim, neste momento sou carne viva, porque não tenho pele, não tenho pele. A pele protege e o teu sorriso protege-me também, protege-te também. Afasta as sombras. Eu não tenho pele, mas não dói, só faz ferida, incurável sei bem. 
Estas palavras sim, têm a forma de balas, custam a sair e, quando tocam o papel fazem fogo, ferida mas são elas que me fazem também fugir de mim, da realidade, das sombras e até do sol. E eu adoro o sol, o sorriso, os raios, a claridade, os pássaros, o dia, a tarde. Eu adoro, mas não sou capaz, tenho de fugir de mim e tomar a forma de bala, de saudade para poder fugir de mim e não tentar dizer, com olhos mentirosos, sombras escuras: Eu não tenho saudades. 

Matematicamente brilhante

Sente esta vibração que sai de mim, em forma de orgulho, de brilho, de felicidade e tudo o que a envolva. Gostava que tivesses orgulho em mim, quando o fiz para não te desiludir. Acho que não desiludi, pelo contrário. Diz-me se superei as tuas expectativas e agradece ao teu sorriso. Sim, sem ele, continuo a dizer, que nada era possível. Era esta a matemática que me referia à algumas palavras atrás: o teu sorriso é infinito e a minha capacidade é uma conta de somar. Mantém-te assim, por favor. Este orgulho em mim, não me pertence, é teu. Esta felicidade pelo que fui capaz, não fui eu que fui capaz, foste tu que me deste força. Sente esta vibração que sai de mim, em forma de orgulho, de brilho, de felicidade. Esta vibração é tua. Tem o teu cheiro, tem a cor dos teus olhos, a forma do teu rosto, o brilho do teu sorriso. Sim, fizeste-me, com o teu sorriso, capaz disto. Agora vou festejar, quem me dera contigo. Sei que estás longe, mas sei também que sentes a minha vibração! Sim, esta vibração é tua e da matemática que ensinaste à minha vida. Porque hoje o dia é de 1+5, é de mim -1- e de ti, do teu sorriso, que brilha mais do que 5 grandes estrelas. Obrigada, livro, pelo brilho. É teu, parte de mim, mas é teu. Fui eu que o fiz, mas é teu. Eu fi-lo a pensar em ti e espero não te ter desiludido!

Fumo e água

Dentro do fumo destes cigarros vejo-me a mim, incerta dentro dos teus olhos, que já não sei mais ver. O meu imaginário, aquele de que vivo, já não me chega. Os teus olhos já não me aquecem. Está calor, é verão, mas dentro de mim, abate-se um inverno rigoroso. A pele não é mais pele, gelo se torna, e os meus olhos implorando os teus, transformam-se em chuva, doces pedaços de água salgada, lágrimas. 
Dentro do fumo destes cigarros, fumo a esperança saber que vens, mas não saber a que horas vens, a que horas voltas. É uma esperança que não sabe morrer, mesmo matando-me a cada cigarro que fumo. 
Fumo, agora, para não te lembrar, ou por não te saber esquecer. Jamais poderia esquecer o calor dos teus olhos que não te sei ver. Eu mato-me, sim, entre este fumo, mas aquece-me a alma. 
É duro este inverno, dura é a chuva que cai, por nada, para nada. Por ti, para regressares. Verão já não sabe a sol e a ondas da praia, sabe antes a tempestades de sol, em alto mar, dentro de mim. Perdida estou num barco, sozinho neste oceano que crio. 
Entre este fumo, a morte que antecipo, entre as ondas que me abatem e o tempo que não sabe chegar, e o tempo que não traz o calor dos teus olhos, a chuva é dura, cortante e asfixiante. A chuva, dentro de mim e fora de mim, cai para nada e por nada. A chuva, entre o fumo destes cigarros, só serve a uma coisa: Lembra-me dos teus olhos que já não me aquecem. Lembra-me dos teus olhos que já não me sabem ver. 

Bem sei.

Como te disse, no inicio desta saga de emoção, envolta em sentimento, eu agarrei-me a ti, mesmo sabendo que trazias as mãos vazias, um olhar impreciso que não viria na minha direcção, nunca. Mesmo sabendo isso, eu não as neguei, toquei-as levemente e, agora, trago-as sempre comigo. Não vou dizer que vazias continuam, pois já mostraste que, das tuas mãos, muitos frutos se podem colher. Não vou dizer que o teu olhar é impreciso e não olhou nunca na minha direcção, já provaste olhar-me. Vim-te apenas dizer que realmente me provaste, pela 2ª vez, que vale a pena agarrar mãos e acreditar que nem sempre estão vazias, mesmo quando o achamos. Vale a pena conhecer. Eu gostei de conhecer as tuas mãos, de lhes tocar, de ver frutos e gostava de um dia te poder compensar por isso. Eu sei que esse dia nunca irá chegar, mas deixo aqui, nisto que vais ler, impressa a minha vontade de te agradecer. Há pessoas que passam e outras que marcam, se outrora não quis sequer que tivesses passado, agora gostava que marcasses mais. Eu sei como vieste. Eu sei como mudaste, bem sei como ficaste e, agora, bem sei como vais partir. Até lá, se ainda não o atingimos, deixo o sincero obrigada pelas tuas mãos. deixo um sincero obrigada pelo desenho do teu sorriso. Deixo um sincero obrigada pelas lições. Deixo um sincero obrigada por seres assim e deixo também uma sincera vontade de que não te vás embora. 

Tardes em que me deito.

Estou deitada sobre uma incerteza da tua existência. Entre os sonhos em que és saudades e os sonhos em que te espero, já desconfio de tudo. Tu já não és conhecimento, és emoção. Já não sei definir a forma do teu rosto e as palavras que disseste. Lembro-me das tardes, ou dos pedaços delas, lembro-me das palavras, ou dos pedaços delas. Lembro-me do cheiro, da cor, da alegria. Eu sei que essas tardes, as quartas-feiras, não voltaram a ser mais santas, não voltaram a ser nossas. Espero que o tempo que não sabe vir, para ter mais pedaços de tardes e de cheiros: de ti. Sei, com toda a certeza, que voltaremos a tomar a mesma forma e voltaremos a ser os mesmos cheiros, dessas tardes. Eu sei que vamos ser sempre a mesma alegria. Não sei as tardes, não sei medi as saudades, mas sei que voltaremos a tomar a mesma forma. A forma das minhas mãos, quando pousaram as do teu rosto, a forma dos teus olhos, quando pousaram nos meus olhos. Eu sei que vamos ser um só corpo, vamos partilhar a alma, num abraço e, entre as tardes que não chegam, eu sei que vais ser alegria. 

Egoísmo

Eu tenho marcas, cicatrizes, feridas por curar.
Sei ter força mas também sei amar, gostar e querer. 
Eu também sei esperar. Mas a espera, toda a espera... 
Eu tenho marcas, feridas por curar, eu tenho medo. 
percebe que tenho medo. E também sei ser egoísta. 
Admito. Admito todo o meu egoísmo. 
Admito todo o medo.
Dentro das cicatrizes, perdi tudo.
Dentro das marcas, perdi todos.
Dentro das feridas por curar, eu não te quero perder a ti.
Eu tenho medo e o meu medo é maior que o egoísmo.
Eu sei amar, gostar e querer. A coisa que mais quero,
a coisa que mais quero. Eu espero pelo que mais quero.
mas também quero deixar de ter medo. Sou egoísta.

O que o tempo quer ser.

Corre o tempo, numa ânsia de não querer voltar.
Fico à espera. Eu espero. Todos os dias. 
Só não me peças para aproveitar o dia,
quando o dia passo à espera que passe. 
Já não sei viver sozinha, mas eu espero. 
Luto para que seja o que não soube ser, 
o que não sonhei sequer ser mas 
as veias já não respondem.
É tão mais fácil não falar à noite. 
É tão mais fácil não falar ao dia. 
Tão mais fácil é não te querer lembrar, 
tão mais fácil é não fazê-lo. 
É, é medo, envolto numa capa negra de noite,
envolto em mim. Eu sou a noite. 
mas estrelas não te trazem. 
mas lua não te mostra. 
Adormeço numa chama, que não é sol. 
É sempre tarde, é sempre cedo. 
O tempo corre, mas em mim não passa. 
É só amanhã, é sempre amanhã. 
Eu espero. Todos os dias. 
E o meu medo está numa capa negra de noite. 
Eu, enquanto espero sou a noite, 
mas já é tarde. Já é medo. Já começa a doer. 
Mas eu espero. Eu espero. Todos os dias. 
É só amanhã. É sempre amanhã.

Olhar de menina

Tentei escrever-te as palavras que não querias dizer, nesse silêncio de quem cala mas não consegue consentir. Eu tentei escrever-te nas palavras que ninguém te sabia, nas palavras que ninguém te acreditava e poucos acreditam, ainda. Dentro do silêncio das palavras que te sabia, que tu te sabias mas não sabias dizer, eu soube-te como poema e não soube adormecer. Em noites como esta, sozinha, eu nunca soube estar sozinha, porque estas palavras que não querias dizer me levam até ti. É no silêncio do poema calado que te escrevo que estou contigo. Cruzamo-nos, quando estou sozinha, dentro do poema calado, com um simples fechar de olhos meu, teu. É teu, somente teu porque quando o faço, dirijo-me a ti, vejo-te a ti, sinto-te aqui, sem gelo ou pedra, sem idade. 
Na minha vida serviste para fazer um poema calado, uma prosa silenciosa. Se leres, mesmo que alto, nenhuma destas letras te fará sentido. Eu nunca fiz com que elas pudessem fazer qualquer tipo de sentido, simplesmente quis que as conseguisses sentir. Acima de tudo tentei, ao escrever o que tu não querias dizer, desvendar o teu doce olhar de menina. Aquele mesmo olhar que sabia que tinhas, que sei que és. Atrás da pedra que quebrou e do gelo que derreteu, eu sei que também tu ainda és uma menina, pequena e frágil, de olhar mais doce que o próprio doce. Sempre o foste e essa certeza nem a idade te pode tirar. Descobri essa certeza no poema calado, das palavras que não querias dizer, que acabaste por admitir. Mas certeza maior que essa é que, dentro do poema calado que não se sabe silenciar, eu saberei sempre que, ao fechar os olhos, me dirijo a ti, vejo-te a ti, sinto-te aqui, sem gelo ou pedra, sem idade, com doce olhar de menina. Tu és mais menina do que eu, quando fecho os olhos e ficamos sem idade. Mais doce do que o próprio doce. 

Palavras


Escrever-te jamais será uma missão fácil. Não passas por articular pequenas palavras, encher frases de verbos, palavras caras, pôr virgulas nos sítios certos e conjugar todas as palavras de modo a soarem bem. As minhas palavras para ti nunca foram feitas para soar bem. Nunca quis sequer que soassem, por isso, percebe toda a dificuldade disto, de missão difícil. É essa dificuldade que me leva a escrever-te. De entre letras e palavras, virgulas e verbos, de nada servia as conjugações certas que soassem bem se, dentro de cada uma delas, não imprimisse sonhos e conteúdo. Cada palavra destas tem conteúdo. Nunca te escrevo com o verbo "encher", mas sim com o verbo "sentir". Desse modo eu nunca te escrevo, simplesmente te dou a conhecer pequenos retratos que vou desenhando teus. Todas estas letras são demasiado tuas, para serem minhas. Vejo-as como filhos e assim te deixo os meus filhos. Saem de mim, para o mundo. Tu sabes ser um mundo, mesmo que não acredites. 
Sempre considerei que dentro de cada ser humano existia um mundo, uns mais apaixonantes que outros, claro está. Ter-te começado a escrever passa por este exacto ponto: quando eras gelo e pedra e monstro, nunca me mostrou que também tu eras um mundo. Assim, passei-te a escrever com o mesmo cuidado com que todas estas palavras nasceram em mim; com a mesma calma com que, esporadicamente, me ia lembrando delas; com a mesma sinceridade com que as aprendi. 
Eu nasci sem saber nenhuma palavra e nem te sei precisar qual a primeira que disse, que escrevi. Decerto haverá quem se lembre, decerto sei de quem se esqueceu e mesmo quem se esqueceu, não deixou de ser um mundo. As minhas palavras nasceram simples, primeiro aprendi a saber dizê-las, depois aprendi a saber escrevê-las e só mais tarde as pude aprender a sentir. Algumas dói sentir, outras ajuda. Espero que a ti, meu querido livro, te ajudem. Estas palavras nasceram de mim e vão para o teu mundo com o objectivo de te ajudar. Eu quero-te ajudar a sorrir, mesmo que só através de palavras. Lembra-te que as palavras têm mais força do que nós possamos imaginar e, assim, se tudo isto te esboçar mesmo que um só sorriso, já valeu a pena. Eu saberei, nesse dia, que acreditar que tu és um mundo, valeu a pena. Tudo em ti vale a pena, porque a tua alma é maior do que eu mesma possa imaginar algum dia. 

Quente de lareira numa noite de inverno

Havia sinais a indicar o caminho do ódio. Parecia um caminho longo, não doloroso, mas longo. A distância dos teus olhos aos meus fazia desse caminho longo. Houve dias em que acreditei ser doloroso, em que acreditei que todas as minhas ligações contigo seriam dolorosas, mas nunca acabou por ser dor. Como um ser humano comum, habituei-me. O meu hábito de te odiar manteve-se e o caminho prolongo-se. Era infinito, acreditava. Era tão infinito como o negro envolto no teu nome, quando soado aos meus ouvidos, tão infinito quanto o gelo que cerravas nos teus olhos. Parecias tão fria. Dentro desse gelo, que nada parecia poder penetrar, não sabia ler nada. Eu nunca gostei de ler coisas frias. Sempre que abro um livro quero algo que aqueça a alma, que me faça esquecer a realidade, tornando o meu mundo imaginário mais quente. Eu imaginei que os teus olhos, para mim, fossem sempre gelo. Toda tu, mesmo o teu sorriso desconhecido, era inverno. 
Eu não gosto do inverno, mas gosto da chuva. Eu não gosto do inverno, mas gosto de acender a lareira. Um livro, para mim, é como uma lareira. Nada sabe melhor que o quente de uma manta, o quente da lareira numa noite de inverno. Nunca soube que também tu podias aquecer numa noite de inverno, por isso mesmo o caminho era longo. A minha pouca esperança, ou nula, de que fosses também tu tão quente quanto um livro ia-se perdendo ao mesmo tempo que o caminho parecia não ter fim. Imaginava eu o meu ódio um caminho sem fim. 
Dentro do caminho, dentro das tuas ausências prolongadas e, na altura, adoradas, eu nunca quis acabar o caminho. Tinha poucas forças. Não queria derreter um gelo inquebrável. Tu também talvez tivesses poucas forças. Tu também talvez não derreter um gelo, que não era inquebrável. Os teus olhos eram esse gelo. O teu sorriso nem de gelo se fazia. Pedra. O teu sorriso era pedra. Porém, tanto tu quanto eu sabíamos que, aquando do derretimento do gelo que cobria os teus olhos, a pedra também acabaria por cair. Nesse dia, nós sabíamos, que o caminho teria um fim. 
Quando o dia por fim chegou, o gelo derreteu, a pedra caiu. O infinito do caminho quebrou. Tu passaste a ser verão e, de ti, surgia calor. Do teu sorriso surgia calor e, mesmo no verão, eras como uma lareira a aquecer a alma, do imaginário que crio. Por vezes tenho dúvidas se tu, aquela pessoa para quem escrevo, não será também só imaginário, mas também tenho a certeza do calor de ti, como livro, como lareira. É isso mesmo que me faz crer que o caminho, mesmo quando julgamos infinito, tem um fim à vista, mais próximo dos que nós mesmos consigamos imaginar. Eu aprendi isso nas tuas histórias que, com calma, fui desvendando. O gelo não é para sempre e o calor surgiu como labaredas dos teus olhos. A pedra pode partir, pode cair e o teu sorriso ficou mais puro que diamante. O teu sorriso ficou mais brilhante que diamante. Foram estes pequenos ensinamentos que te fizeram livro e, hoje, verão, sem precisar de lareira, eu gosto de sentir o teu quente, na alma. E, hoje, verão, sem precisar de relembrar o caminho, eu gosto de sentir que o infinito acabou. O infinito deu lugar à eternidade. A tua eternidade prende-se à maneira como entraste, à maneira como ficaste e à maneira como nunca saberás ir embora. Assim, mesmo que o verão seja inverno, quando eu precisar de calor, saberei ter-te aqui. Assim, mesmo que o verão seja inverno, saberei que o gelo quebrou, a pedra caiu, que o calor aumentou, que o inverno fugiu. E nestas pequenas frases encerro ensinamentos de vida.

A vida de uma flor

A vida natural das flores é crescerem e, algum dia, serem colhidas por alguém e as diferentes finalidades de uma flor, após serem colhidas, é o que faz da flor, uma flor. 
Uma flor deixa sempre de ser uma flor depois de colhida. Quando segue para uma jarra, vira um objecto de decoração. Quando segue para uma florista, vira objecto de compra. Quando segue para as mãos de alguém, vira objecto de coração. 
O ciclo de uma flor nunca é o mesmo, mesmo que tome qualquer uma das vertentes acima apresentadas. Eu nunca tive uma flor, posta por mim, numa jarra, como decoração. Eu nunca tive uma florista, para a pôr como objecto de compra. Mas a única flor que me foi entregue, como prenda, virou objecto de coração. 
Aquando da sua entrega dei valor ao gesto, a partir daí, virou presença habitual no meu quarto. Observou a mudança de casa, de quarto, sem se magoar, sendo sempre um objecto que preservei. Hoje, passado um ano, continua numa parede, presa por fita-cola, junto de outros objectos de coração. Nunca a esqueço, nunca a soube esquecer e lembro-me, sem dificuldade da sua entrega - o local, a hora, o teu sorriso e o brilho dos meus olhos. 
Ontem, que fez exactamente um ano, fui tocar-lhe. Com cuidado, tirei-a da fita-cola, peguei-a com o máximo cuidado que sei ter e sentei-me observando-a. Confesso que até lhe arranquei uma pétala e tentei cheirá-la, como é óbvio o cheiro já não é muito, mas ainda o soube sentir. Percebi assim que a existência desta flor é muito mais do que como objecto e assim a percebi como objecto de coração. Ela foi-me entregue, a emoção com que me foi entregue, por ti, permanece nela, como se sangue corresse entre as suas pétalas e toda a certeza desse sangue fosse a tua emoção. Eu guardei-a conforme te guardei no meu coração, ela permaneceu conforme tu permaneceste cá. A minha dúvida é: a flor veio ter comigo cheia de vida, cheia de emoção, bem vermelha e pronta para me fazer sorrir, como tu, mas foi secando. Agora está escura e as suas folhas castanhas. Será que tu também vais secar, em relação a mim, com o tempo? Confesso que já tive mais dúvidas de que isso esteja a acontecer. 

Origens e finalidades

Avaliar as origens de te escrever é difícil, tenho de remontar aos tempos em que ainda não tinha visto o teu sorriso, àquele dia (que nem tu te lembras) em que te vi, ao teu primeiro sorriso, para mim. Decerto não saberia que algum dia poderias vir a saber da existência de tudo isto, muito menos por mim, não me achava com coragem para dizer ao teu coração, que julgava frio, que o meu coração te houvera escrito tantas letras, tantas emoções. 
Desde que te comecei a escrever sempre pensei que eram apenas rascunho de letras, um esboço do meu coração sobre uma coisa que não conhecia, ou que conhecia de uma maneira diferente da que me houvera sido apresentada, mas as emoções e os teus sorrisos começaram a aumentar. A minha felicidade era parecida com a do teu sorriso e, por isso, sempre te quis escrever. Parti assim numa aventura, e quando estava contigo lia-te, observava-te como se fosse a ultima vez que ali estavas, perante mim. Todos os dias, em que estava contigo, eu tentava arrancar-te um sorriso e, quer acredites quer não, eu também sabia sorrir só de ver o teu sorriso. Tornaste-te uma espécie de terapia, escrevia-te para sorrir, escrevia-te para que sorrisses e, consequentemente, eu também me arriscasse a sorrir. 
Sabes que eu não era ninguém sem as outras pessoas, sempre me apaguei demasiado a seres humanos. Tenho medo da solidão. Estas letras o provam. Quando estava sozinha, tentava sempre vir-te escrever, sentido-me acompanhada por algo que despertava a minha atenção. Durante todo este tempo, desde Novembro de 2011, tenho-te vindo a estudar. Descubro coisas que nem eu própria sabia existirem e toda a tua receptibilidade a esta ideia fez-me crer que realmente ainda não te conheço bem. Deixaste-me surpresa e com vontade de ainda te escrever mais e mais e mais.
Sempre pensei que, nesta aventura de "Livro", escreveria até te ver e, quando tivesses de te ir embora, ias sem que nada o travasse. Certo é que o tempo não deixou isso acontecer, que tu não o deixaste acontecer e o meu sorriso aumentou quando percebi isso. Se a tua passagem pela minha vida for só isto, eu sei que já não serás indiferente. Se a tua passagem na minha vida se encerrar com a leitura destas letras, eu vou-me sentir feliz. Se o teu nome ficar impresso aqui, se não deixares de sorrir, mesmo que eu não veja, eu saberei que valeu a pena tudo isto, o tempo que escrevi, que te estudei, que te tentei arrancar um sorriso. Acredita que, se ao leres estas letras estiveres a sorrir, eu não me esquecerei do teu nome. Não me esquecerei do teu sorriso e, assim, contribuirás para a minha felicidade.