O que o tempo quer ser.

Corre o tempo, numa ânsia de não querer voltar.
Fico à espera. Eu espero. Todos os dias. 
Só não me peças para aproveitar o dia,
quando o dia passo à espera que passe. 
Já não sei viver sozinha, mas eu espero. 
Luto para que seja o que não soube ser, 
o que não sonhei sequer ser mas 
as veias já não respondem.
É tão mais fácil não falar à noite. 
É tão mais fácil não falar ao dia. 
Tão mais fácil é não te querer lembrar, 
tão mais fácil é não fazê-lo. 
É, é medo, envolto numa capa negra de noite,
envolto em mim. Eu sou a noite. 
mas estrelas não te trazem. 
mas lua não te mostra. 
Adormeço numa chama, que não é sol. 
É sempre tarde, é sempre cedo. 
O tempo corre, mas em mim não passa. 
É só amanhã, é sempre amanhã. 
Eu espero. Todos os dias. 
E o meu medo está numa capa negra de noite. 
Eu, enquanto espero sou a noite, 
mas já é tarde. Já é medo. Já começa a doer. 
Mas eu espero. Eu espero. Todos os dias. 
É só amanhã. É sempre amanhã.

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