Olhar de menina

Tentei escrever-te as palavras que não querias dizer, nesse silêncio de quem cala mas não consegue consentir. Eu tentei escrever-te nas palavras que ninguém te sabia, nas palavras que ninguém te acreditava e poucos acreditam, ainda. Dentro do silêncio das palavras que te sabia, que tu te sabias mas não sabias dizer, eu soube-te como poema e não soube adormecer. Em noites como esta, sozinha, eu nunca soube estar sozinha, porque estas palavras que não querias dizer me levam até ti. É no silêncio do poema calado que te escrevo que estou contigo. Cruzamo-nos, quando estou sozinha, dentro do poema calado, com um simples fechar de olhos meu, teu. É teu, somente teu porque quando o faço, dirijo-me a ti, vejo-te a ti, sinto-te aqui, sem gelo ou pedra, sem idade. 
Na minha vida serviste para fazer um poema calado, uma prosa silenciosa. Se leres, mesmo que alto, nenhuma destas letras te fará sentido. Eu nunca fiz com que elas pudessem fazer qualquer tipo de sentido, simplesmente quis que as conseguisses sentir. Acima de tudo tentei, ao escrever o que tu não querias dizer, desvendar o teu doce olhar de menina. Aquele mesmo olhar que sabia que tinhas, que sei que és. Atrás da pedra que quebrou e do gelo que derreteu, eu sei que também tu ainda és uma menina, pequena e frágil, de olhar mais doce que o próprio doce. Sempre o foste e essa certeza nem a idade te pode tirar. Descobri essa certeza no poema calado, das palavras que não querias dizer, que acabaste por admitir. Mas certeza maior que essa é que, dentro do poema calado que não se sabe silenciar, eu saberei sempre que, ao fechar os olhos, me dirijo a ti, vejo-te a ti, sinto-te aqui, sem gelo ou pedra, sem idade, com doce olhar de menina. Tu és mais menina do que eu, quando fecho os olhos e ficamos sem idade. Mais doce do que o próprio doce. 

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