Eclipse

Mesmo sem te perguntar o nome sabia. Não perguntas porquê ou porque não, mas eu sabia. Eu não te perguntei se querias. Eu não te pedi autorização. Eu não te conhecia, mas eu sabia. Estas letras provam-no, eu sabia. Eu sabia tão bem quanto as pessoas que não me acompanham nesta viagem. Não tenho ninguém ao meu lado, mas eu e elas e o céu sabíamos. Mas não te perguntei o nome porque eu sabia, não o teu nome, mas eu sabia que eras um livro e o teu nome não interessava. Certo é que agora causa a sua vibração em mim, o teu nome, quando o oiço. Mas eu sabia que eras livro, que o teu nome, em mim, ia ser livro, antes de saber o teu nome. Eu sabia, percebes? Vês quando a lua se eclipsa e o sol? vês quando as pessoas moram e fica sempre a alma? Vês quando se parte um vidro e se transformam em enormes pedaços desse mesmo vidro? Eu sabia que tu ias partir esse vidro e que dele viriam milhões de pedaços. 
Eu sou um desses pedaços que ninguém soube limpar, antes mesmo de saber o teu nome. Sempre fui um pedaço que se esquecem, indiferente, mas acabo sempre por ficar no chão e, alguém, algum dia, me virá a descobrir. Tu és como eu: quando o teu olhar se partiu em mil pedaços de emoções - quando o vidro do teu olhar me dizia que não tinhas sequer coração. Contudo e ao contrário de mim, tu sempre tiveste muitos a descobrirem-te e nunca soubeste ser esquecida. Agora tu também és um desses pedaço de vidro, a partir do momento em que te disse a existência destas letras. Eu sabia que tu ias gostar - ou mentes bem. Vês? eu sabia que ias gostar, mesmo antes de saber o teu nome que agora causa esta vibração em mim. Mesmo antes de saber que eras livro, quando eu duvidava do teu coração, quando o vidro não queria partir - ou tu não o querias partir - eu sabia. E não me perguntes como é que eu sabia, porque nem eu sabia que sabia. Só depois do vidro partido, dos pedaços de emoções tuas pelo chão é que eu soube que realmente sabia. Agora pouco mais sei do que essa vibração do teu nome, do que essa reacção perante a revelação destas letras. Agora pouco mais sei do que livro, do que vibração, do que livro. Pouco mais sei do que tu, sem ser que a lua se eclipsou e o sol, que as pessoas morrem mas fica-lhes sempre a alma, fica-nos sempre a alma. Pouco mais sei do que o mundo e da vibração que um só nome causa. O teu nome. Mesmo sem saber o teu nome, eu sabia, livro.

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