Dentro do fumo destes cigarros vejo-me a mim, incerta dentro dos teus olhos, que já não sei mais ver. O meu imaginário, aquele de que vivo, já não me chega. Os teus olhos já não me aquecem. Está calor, é verão, mas dentro de mim, abate-se um inverno rigoroso. A pele não é mais pele, gelo se torna, e os meus olhos implorando os teus, transformam-se em chuva, doces pedaços de água salgada, lágrimas.
Dentro do fumo destes cigarros, fumo a esperança saber que vens, mas não saber a que horas vens, a que horas voltas. É uma esperança que não sabe morrer, mesmo matando-me a cada cigarro que fumo.
Fumo, agora, para não te lembrar, ou por não te saber esquecer. Jamais poderia esquecer o calor dos teus olhos que não te sei ver. Eu mato-me, sim, entre este fumo, mas aquece-me a alma.
É duro este inverno, dura é a chuva que cai, por nada, para nada. Por ti, para regressares. Verão já não sabe a sol e a ondas da praia, sabe antes a tempestades de sol, em alto mar, dentro de mim. Perdida estou num barco, sozinho neste oceano que crio.
Entre este fumo, a morte que antecipo, entre as ondas que me abatem e o tempo que não sabe chegar, e o tempo que não traz o calor dos teus olhos, a chuva é dura, cortante e asfixiante. A chuva, dentro de mim e fora de mim, cai para nada e por nada. A chuva, entre o fumo destes cigarros, só serve a uma coisa: Lembra-me dos teus olhos que já não me aquecem. Lembra-me dos teus olhos que já não me sabem ver.
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