Estas horas

Pudesse eu criar um heterónimo e dizer-te tudo isto de uma forma simples, clara e frontal, dir-te-ia todas as estas linhas que, insistentemente, escrevo em vão, para o ar. Eu sei que também o respiras, estes mesmo ar que eu, o ar para onde eu escrevo, mas não sei se entre tantas figuras de estilo, metáforas e comparações conseguirás ser capaz de perceber cada palavra que te digo e o sentido próprio de tudo isto. Todos estes textos criam uma linha muito própria da tua passagem na minha vida e, se outrora te sabia repugnar, agora sei-te ver. E se outrora te sabia difamar, agora sei-te ler. Por isso mesmo, livro, tenho medo que, dentro deste mesmo ar que ousamos as duas respirar, não consigas perceber toda uma lógica que criei ao escrever-te isto. Já vão longas as horas que te dediquei e te escrevi, ainda mais longas foram as que te li, e a lógica de tudo isto é ver-te, mesmo sem saber respirar este ar, com estas letras, metáforas e comparações, teres percebido que eu te queria, assim. Que o mundo te queria, assim. 
Já vão longas as horas e mais longos vão os textos, todos com um propósito, com uma razão de serem, a vontade de escrever permanece e, desse modo, faz valer a pena às horas que "perdi", àquelas horas em que tive um súbito ou fundado desejo insaciável de te querer escrever, de te chamar livro, de te explicar, livro. 
Acredita, meu caro Livro, que, caso venhas a ler estas letras todas, com ou sem heterónimos, eu saber-me-ei contente por algum dia te poder ter lido, por ter observado, mesmo que com pequenos "isto" ou "aquilo" o teu sorriso. Estas horas, que me roubaste ao sono ou a quaisquer outras coisas do meu quotidiano, fizeram-me bem e, caso as leias e saibas ler, acima de tudo, me farão melhor, te farão melhor. É aí que reside a lógica e o sentido - em saber que isto te fará bem, caso leias, que isto me fez bem, mesmo que nunca me tenhas lido. Eu gosto de te observar e admirar de uma maneira inquestionável, imperceptível a olhos alheios. Por muito que tente explicar estas horas ninguém, que não eu, saberá as múltiplas sensações que crio em mim, ao escrever-te, por saber que algum dia podia escrever qualquer tipo de sensação nesse teu livro. É por isso que te chamo livro, no fundo, mesmo não podendo escrever em ti, eu gosto de saber que escreves as tuas linhas, antes com um lápis de carvão, agora com lápis de cor. O teu sorriso é colorido agora, mesmo quando eu pensei nunca mais o poder observar deste modo. Provaste-me que valia a pena dar-te uma paleta de cores, de lápis de cor. Provas-te que os sabias utilizar e essa, acredita, é a melhor recompensa de todas estas horas que te soube dedicar. 

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