Os meus outros olhos #4

Então soube, ou soube-me o tempo, roubar a pureza do sorriso, carregando nele, por vezes, os bocados da sociedade mais nítida. Os pacotinhos de leite com chocolate, deixaram a minha mochila, inclusive a mochila deixou as minhas costas, tal como os peluches deixaram todos os cantos do meu quarto. O meu quarto nunca mais foi o mesmo. Entre papéis e papéis, livros e cadernos, resumos e esquemas, vernizes e brincos, sapatos de salto e os pensos higiénico, até o meu quarto perdeu a sua pureza em bruto. Agora é mais meu, porque eu agora sou eu. Antes, era parte de quem me fazia, agora sou o que me quis fazer, com as ajudas que sempre aceitei receber. Todos os actos agora são minha inteira culpa e chorar já nada resolve. E as médias, os exames, as pautas. Os peluches deixaram de falar comigo, numa língua que só nós sabíamos, duma forma que nós sabíamos. Eu e eles choramos por termos perdido esse tempo, os que ainda guardo. A minha boneca, o meu macaco branco, a vaca, a girafa, o leão, os dois ursinhos, esses ficam, na criança que não morreu.
Agora é tudo tão real que apetece novamente o mundo de fantasia, em que o natal é brinquedos, a Páscoa são ovos kinder, os sábados são acordar para ver desenhos-animados e as férias para jogar futebol. O natal são férias, a Páscoa são férias e as férias do verão são festas. 
Olhando-me hoje ao espelho vejo que não sou mais o que soube ser, cresci de altura e mudei em todos os aspectos. Emagreci, cresci muitos centímetros, o meu corpo mudou consoante o tempo quis. Os pacotinhos de leite foram, neste dia, substituídos pelo café. O café é unido à cerveja. A cerveja unida à maquilhagem. A maquilhagem unida aos vernizes. Os vernizes unidos às amigas. As amigas unidas às médias. As médias unidas aos testes. Os testes unidos ao café. E, no dia da criança, o sentimento de perda deste dia é real, duro e forte. Agora não é mais o dia da criança, é o dia em que tenho teste, exame, apresentações. Mais tarde será completamente diferente. Não sei se gosto desta tamanhas diferenças. Gostavas dos livros da uma aventura que recebia neste dia. Agora recebo café, testes, notas e um desejo absurdo de férias, um medo incansável de exames. Os livros da uma aventura permanecem guardados assim, juntamente com a criança que um dia fui. A criança não morreu e parte de mim, será sempre dela.

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