Como vês escrever-te é mais difícil que desvendar os mistérios do céu - o céu não é mistério, e tu és um mistério. Aqui ou além tu, para mim, és mistério, mesmo já te conhecendo alguns pormenores. É nesses pormenores que me concentro quando te quero escrever. Estas palavras são esses pormenores, vistos a meus olhos. Por isso escrever-te é mostrar a minha posição em relação a esses pormenores teus. Escrever-te é sentar-me nesta cadeira, inclinar-me sobre este teclado, mas é escrever-te deste lugar muito teu que eu, por vezes, não sei entender. É escrever-te do meu coração os sentimentos em bruto, com a calma com que as nuvens se transformam em cinza. E, na cinza das nuvens que afecta o meu olhar, eu sinto que estas palavras não te sabem fazer sentido, sabendo à partida que tu não tens sentido em mim. Não é vazio nem é vago, o sentido em nós não sabe existir. E, como nós, há pessoas que não descobrem sentidos, há pessoas que não querem descobri-los num medo arrepiante das consequência dessa descoberta. Nós, pelo contrário, não temos sentido, não o queremos descobrir, mas o medo não é mais nosso, ultrapassámo-lo quando as gotas de chuva caíram sobre nós. Nós e o sentido não sabemos criar laços, tal como estas palavras não criam laços em nada. O nosso sentido cabe dentro do sentido de não existir sentido, não nos querendo esforçar, porque as forças já são poucas, para o descobrir. Nós antes queremos descobrir estas palavras, estas emoções e pequenos sentimentos e saber que, na existência destas pequenas palavras que nunca saberás decifrar, a distância se encurta e o teu rosto não cabe no infinito do céu azul.
Escrever-te
Não é fácil saber-te escrever, numa dúvida insistente se saberás ler certas letras na pureza com que tas escrevo, na ingenuidade com te tento descobrir através delas e na incerteza que se esconde nos dedos trémulos de não saber escrever-te algumas palavras. É isso que hoje me afecta a visão, os olhos. Não, não sei chorar a escrever-te palavras como estas, tão nítidas e ao mesmo tempo tão desfocadas na minha mente, na ausência da claridade do teu olhar. Hoje, os meus olhos estão afectados por nos ver tão claramente no reflexo da minha janela, diz-me a minha alma deveras nostálgica. É nesse nostalgia absurda que, com uma espécie de receio, me sento nesta cadeira muito minha, me inclino sobre estas teclas e começo a escrever desde lugar muito teu. Decerto não percebeste, ao ler esta frase, quase nada do que te disse, por isso mesmo, vejo-me obrigada a decifrar: eu vejo-te no cuidado em que te escrevo, exactamente o mesmo cuidado que eu vejo nas gotas que caiem do céu, no cuidado com que escolhem exactamente o sítio onde pousar. Eu vejo-te na calma com que as nuvens se transformam em cinza, apertam o céu, tornando-o mais pequeno que outrora, no seu azul infinito. Eu vejo-te na certeza com que as nuvens se vão embora, quando o tempo assim o ditar, na certeza que, por trás delas, está o céu azul. Eu escrevo-te, deste lugar muito teu - que tu não sabes qual é- com a mesma força com que as minhas veias trazem o sangue ao coração, e é do coração que te sei, melhor que muitos, falar.
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