À parte disso

Agora, quando vejo o passado, apetece-me beijar o presente e não o deixar fugir. Havia cores, pouco nítidas, numa incerteza do que estávamos a dizer, fazer, por isso os lábios tremiam, por isso os olhos não se cruzavam, os abraços não se davam. Sim, os abraços não se davam. A grandiosidade do tamanho de agora dão-me a certeza de que, no antes, não se davam. Aliás, antes pediam-se, imploravam-se e depois deixavam uma leve felicidade, instantânea. Sentava-mo-nos no sitio mais confortável, para não magoar, abraçava-mos de modo a não magoar, a mal tocar para não magoar, não nos olhávamos com medo de revelar, com medo de magoar. Agora somos de ferro, com coração de diamante. Agora somos diamante, nas poucas vezes que estamos juntas. O mundo é uma réstia de esperança e uma porta, um cheiro de relva, de vida, de sonhos, de cor. O mundo para nós é uma cor. A tua era azul a minha era branca, hoje, porém a tua cor é sempre o verde e a minha cor é sempre o vermelho, invertemos contra todas as perspectivas o nosso branco e preto. invertemos o mundo e a sua lógica dentro de nós. Já não temos lógica. Já não queremos ter lógica. Já não sabemos ter lógica. Por isso, eu já não te abraço com medo de te magoar, eu já não te toco com medo de queimar, olho-te sim com a força que me soubeste dar, abraço-te com os braços que soubeste formar e toco-te com o medo de te magoar. Toco com medo de magoar por te saber frágil, por me saber frágil, mas eu quero tocar. Pede-me para te tocar, mais uma vez. Pede para te fazer um gesto, um carinho. 
Pede-me para te dar cor, mais verde, mais vermelho. Tu és esperança e eu sangue, és a relva e as árvores, o ar, eu sou a vida, sou rosas, com espinho. Antes era uma raiz, agora sou uma rosa. Antes tu eras Roxo e Branco, agora és esperança e o mundo é nosso. O mundo é nosso quando nós existimos dentro dele e beijamos os livros que se escrevem sobre nós. Beijamos e abraçamos as palavras que fogem, os minutos que passam. Nós beijamos as palavras que só nós sabemos o significado, os olhares e expressões e senta-mo-nos desajeitadamente. estamos bem, como queremos e de nada mais sabemos. Estamos bem desde que tu estejas. És o conforto que o meu vermelho precisava para atear, para (re)aparecer e eu, bem, eu era a louca que queria reinventar o teu verde, sou a louca que o quer ver, que o quer beijar, abraçar, tocar, sonhar. À parte disso somos normais. Temos cabeça, tronco e membros. À parte disso, somos infinitas. Temos sonhos, sangue e esperança. Sonhos sangue esperança. Somos infinitas e ainda temos muito para dar. Acredita, muito para dar e muitos sítios para sentar. 

Sem comentários:

Enviar um comentário