Querida princesa,

Fui-te ver, mas não te dei flores, mais. Agora só te dou eu mesma, como me conheceste, como me vais conhecendo. Prefiro dar-te a minha água, do que a água poluída, não minha, das flores. De facto, estava um dia triste, mas não pela água, mesmo carregando tanta coisa nela. A água daquele dia podia trazer dor, que trazia, mas, por si, não sabia ser triste, apenas sabia a sua razão de existir: brilho. Eram gotas fortes, quase dolorosas, que te tocavam. Eram gotas fortes, quase dolorosas, que me escorriam, que me tocavam. Eram gotas, na sua forma de gota: desordenadamente caídas, no local à qual vento as levava. O vento levou-me a ti, mesmo não sendo gota. 
O dia estava triste.
A água era inconfundível. As poças eram fundas e o seu reflexo era misterioso. Os meus olhos são assim, fundos e algo misteriosos. São escuros. São tão escuro como o dia que estava triste. Por vezes, os meus olhos, sabem esconder o sol, por vezes sabem-no reluzir na perfeição. Fui-te ver, no dia tão triste, porque o vento me levou, porque o sol tinha de aparecer. Ele apareceu enquanto tu. Talvez o sol seja uma personificação tua naquele dia, simbolicamente, tão triste. Tu não estavas triste. 
Fui-te ver. O dia estava triste. 
Quando as poças já não me reflectiam, o sol já me tinha dado provas da tua presença, restou o escuro, o nada. Tu viste os meus olhos escuros ainda mais escuros, salpicados das egotas em forma de gota, caírem desordenadamente, no local onde o vento as levava. O vento, tu fizeste-o, com um sopro, levar-me até ti. Tu querias-me dizer alguma coisa, chamaste-me àquela hora, à tua casa, sobre a água, dolorosa. Tu querias ver os meus olhos? Querias saber ser o meu sol? Perguntas sem resposta, ou mais tarde as encontrarei em ti, ou em mim, num sentido que irei encontrar nisto tudo, se é que o há. Acho que não, porque a água realmente doeu-me, tocou-me com força, amachucou-me, escorreu-me com demasiada intensidade, crueldade até, o dia estava demasiado triste para poder encontrar sentido. Nem hoje o encontro e já recuperei as feridas. Quase todas. Há feridas que não se curarão, sem sentido. Eu queria-te abraçar para as curar, mas não podia. Eu queria-te abraçar mas não posso, por isso, nada mais tem sentido. 
Fui-te ver. O dia estava triste. Queria-te abraçar. 

- e merda para quem fez o mundo assim, porque eu, talvez não volte a encontrar um sentido, até ti. 

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