Os meus outros olhos #1

Sempre achei a chuva detestável, mas com um lado de mistério nela impresso. A forma como vem, todos nós a sabemos, quando na escola nos obrigam a decorar o ciclo da água e os seus estados, mas tem mistério no que é, além da água. A forma de gota, tem motivos desconhecidos até agora. A água, assim, nesse seu estado, tem motivos desconhecidos até agora. A sua beleza, dentro do ódio que nutro por ela, é mesmo essa - poucos se interrogam, poucos se justificam. 
Não me cabe a mim pôr uma justificação lógica, longe disso, apenas quero tentar formar a ideia de chuva, descobrir - ou até mesmo só inventar- os mistérios que ela carrega. Olhar por uma janela, com sol é bom, mas pequenas gotas a escorrer, unindo-se numa só, com força, como se dentro delas houvesse vida e, entre elas mesmas, houvesse um entendimento transcendente à nossa capacidade de humanos. Um dia gostava de ser gota, para falar com outras gotas e poder escorregar nesta e naquela janela, cair sem me magoar neste e naquele guarda-chuva. Um às bolinhas, preto e branco, ou um com gatos, ou com estrelas, ou preto, ou branco. Queria saber cair como elas e ver o mundo de outra forma, depois queria voltar a ser humana, de forma entendê-las, a tocá-las como um filho, beijá-las como uma mãe e tratar delas como um tesouro. Aí talvez, dentro do ódio que tenho à chuva, o mistério que ela carrega tornar-se-ia infinito e assim teria mais vontade de a ver. Temos tanta água, mas confesso que tenho sede de a conhecer. 

Foto - tirada por mim, em Lisboa, dia 27-04-12. 

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