Querido Livro,

Mentiria se não contasse, nestas linhas que se formam, que tenho saudades tuas. Que tenho muitas saudades tuas. Já deixaste de ser o meu recurso de inspiração, quando nada mais sobre as outras personagens havia a contar. Já deixaste de ser o livro que guardo na mesa-de-cabeceira e raramente o abro. Cada vez mais gosto de o abrir, de sentir o cheiro das folhas, a fluências das palavras. Cada vez mais gosto de te olhar, de sentir o cheiro do teu cabelo, a fluência da tua vida. Tens uma capa tão discreta, quase medíocre, que só quem te abre poderá saber a riqueza que dentro de ti guardas, que guardas. Mesmo que a sete-chaves, trinta mil cadeados, quinhentas barras de ferros e um labirinto, tu guardas uma riqueza maior do que todos julgam aí, nessas páginas que, nem sempre facilmente, escreveste. Nos esboços de retratos que lá desenhaste, mesmo sabendo do teu pouco jeito para o fazer. 
Sempre soube que era uma curiosa, mas conhecer-te, ver a tua capa e começar a desvendar esse livro, fez-me achar ridiculamente inteligente. Já não sou curiosa mas sim exploradora. Sempre que vou ter contigo, vou vestida como tal: de lupa no olhar e de coração aberto. É só o que preciso para ver essa riqueza. Quais detectores de metais, de ouro ou prata. Os olhos e o coração, os meus olhos e o meu coração, sabem-te ver melhor, detectar-te melhor, ver ouro em bruto no teu sorriso e ver prata trabalhada no teu coração. Sim, pois eu sei que o teu sorriso está em bruto, talvez precisasses de alguém na tua vida para o trabalhar, mas o teu coração, esse, já trabalhado está. Melhor que ninguém sabes quem queres no teu coração, o que queres fazer. Deixaste levar por ele até um ponto que estrategicamente definiste, com a cabeça. O teu coração talvez seja uma mina por descobrir, mas te garanto que pouco a pouco, com poucas páginas de cada vez, eu vou desvendar a tua história, vou saber o teu sorriso e, mesmo que tudo isto acabe antes de o teu livro ter lido, saberei de cor as histórias que mais me comoveram. Saberei de cor as histórias que te fizeram assim e, nesse dia, defender-te-ei até às ultimas consequências, pois verei o quão frágil és, atrás desse sorriso por trabalhar. 

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