Sabes bem que os meus sentidos transformam tudo em poesia. A importância que todos os dias lhes vou dando leva-me, nos sonhos em que és personagem principal, a moldar melhor a tua imagem, não só nos sonhos como em mim. A poesia, sabes tu bem, é o que sai de mim, e tu sais de mim sempre que te escrevo, que te toco, que te mimo. Observo-te como objecto distante, como algo impossível na minha realidade e penso-te não como Alegria, mas como tu ao mundo, como tu ao mundo de alguém, pensando que és irreal ao meu mundo. Mesmo sendo poesia, quando te vejo, quando crio a tua imagem nos sonhos, não me esforço a produzir rimas, elas surgirão - nas nuvens que te cobrem os olhos, quando te passo a mão no rosto, quando os pássaros nos teus cabelos pousaram.
Os meus olhos que te olham como estranha, naqueles sonhos, fazem-te fogo.
As minhas mãos que te tocam como cristal, naqueles sonhos, fazem-te ar.
O meu paladar que te saboreia nas palavras, naqueles sonhos, fazem-te água.
Os meus ouvidos que ouvem a tua voz sábia, naqueles sonhos, fazem-te terra.
Fogo que sabes deflagrar nos meus olhos, chamas cheias de vida, como tu em mim.
Ar que me leva, que me trás, me despenteia e me toca, brisa ou tempestade, como tu em mim.
Água que me leva o sal, que me lava o rosto e a alma, como tu em mim.
Terra que me dá apoio, que suporta as minhas quedas, como tu em mim.
O olfacto é o ultimo que só agora aprendi onde juntar, onde te saber encontrar. O cheiro do "nosso sitio", naquele de hoje, muito teu, já me entra no nariz e parte tudo o que de pior há em mim, fortalece o que de mais frágil há e renova tudo o que já velho se encontra. Os odores que me trazem passados, presentes e os que ainda vão trazes futuros, não sei se serão comparáveis aos teus, mas decerto não farão tantas emoções em tão pouco tempo, de forma tão ágil, tão pura, de uma forma tão natural, com a dose certa, dentro de mim, de natureza: fogo, ar, água e terra, pois não te esqueças:
Os meus olhos que te olham como estranha, naqueles sonhos, fazem-te fogo.
As minhas mãos que te tocam como cristal, naqueles sonhos, fazem-te ar.
O meu paladar que te saboreia nas palavras, naqueles sonhos, fazem-te água.
Os meus ouvidos que ouvem a tua voz sábia, naqueles sonhos, fazem-te terra.
e toda tu és poesia dentro de mim.
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