Devagar, gostava de ter pousado a minha mão, no teu lindo rosto, pela ultima vez. Gostava, devagar claro, de te despentear para ainda sentir o cheiro do teu cabelo, como algo muito teu. Pela ultima vez, devagar, gostava de ter dito que te adorava. o teu sorriso, sei, que devagar de esboçaria e repetiria as minhas palavras, dirigidas a mim, de ti. De ti que, devagar, foste lutando, foste dando força a todos os que te achavam já não poder mais. Foste sendo a estrela de todos e muitos, nessa esperança que todos agarram para que, fugindo da morte, ou não querendo nela acreditar, vivem numa possibilidade remota de que tudo se vai resolver. É certo que tudo se resolve, devagar. Nem sempre se resolve da melhor maneira e, muitas vezes, resolve-se pela ultima vez. É essa a lógica da nossa vida: tudo se resolve. Tudo se resolve, mas muitos põem nessa afirmação um peso demasiado grande para essas singelas palavras: acham que podem distrair a morte. Nem tudo assim é, mas resolve-se sempre. Resolve-se a doença quando alguém a cura, e resolve-se quando alguém é fulminado por ela, por mais força que tenha, pela ultima vez.
A expressão: "assim já não sofre" parece ingrata quando alguém morre, parece infundada num egoísmo atroz dos que amavam quem morre. Devagar, por muito que custe engolir tal expressão numa primeira abordagem, esta realmente passa a fazer sentido. Nem sempre é fácil adoptá-la. Nem sempre é fácil encara-la como a realidade solitária da pessoa que perdemos, por isso mesmo a palavra morte vem sempre associada a "devagar" e a "ultima vez".
Devagar, tudo o que é nosso, o que pensamos deixar de fazer sentido, volta a ganhar cor, deixa de ser pálido, quase incolor, deixa de ser frio, quase gélido. Passamos antes a pintar de mais cores, diferentes de antes. Devagar, a nossa visão sobre a vida passa a mudar. Devagar o nosso coração começa a aquecer com mais facilidade, perante certos gestos. Devagar começamos a adaptar-nos à não presença, à falta, à certeza, à ultima vez. Isto não implica o esquecimento, jamais, implica uma posição diferente face a muito do nosso mundo. Devagar, voltamos a ser o mesmo corpo que sempre foi nosso, que a morte levou parte. Devagar, começamos a adaptar-nos às velhas roupas, que assistiram àquela morte, que ouviram as ultimas palavras, choraram as ultimas lágrimas e esboçaram os últimos sorrisos. São roupas que, devagar, voltam a ganhar a forma do nosso corpo. O sorriso também volta a ganhar forma, não a mesma, mas outra, com muito mais intensidade, devagar. Devagar, deixamos que a morte leve o nosso bocado que lhe pertence, que nos deixe suados dos olhos, cheios de memórias cravadas no rosto, na pele, nas roupas que de tão frágeis, deixam trespassar para o corpo. A morte, devagar deixa marcas. A vida, devagar, sabe curá-las, basta sabermos viver como se tudo fosse a ultima vez, devagar como o tempo merece.
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