Querido Piano,

Quantas mais vezes oiço vossa voz, mais me apetece ter-vos aqui e, continuamente, ouvi-la. Parecendo que os pássaros todos poisam no vosso ombro, que vos iluminais como um ser irreal, parecendo que ser divina, vossa voz consagra ainda mais força dentro de mim.
Agora, estando aqui rendida as palavras que não oiço da vossa voz, tenho um súbito desejo de a ouvir. Ela penetra-me nos ouvidos e ecoa na minha cabeça como algo inquebrável. A melodia dela. O sentido que ela tem. Eu sei, eu sei, é só para mim, mas sendo para mim, sabe bem demais tudo isto. Ouvir-vos e ver-vos sabe-me bem demais. É por isso que me vicio nas vossas teclas e no seu som. É por isso que vos escrevo: porque quero ouvir, sempre, a música que tocais. Todos os dias me presenteais com uma nova e, quando retomais uma mais velha, é um oceano nostálgico de lágrimas dentro de mim. Todos os dias me presenteais com o vosso preto, sempre igual e, também ele, intocável. É o vosso preto. Depois sim, vem o vosso branco, das teclas, dos dentes. Talvez chamar-vos piano, a cada dia que passa me faça mais sentido. Cada dia que passa é cada vez mais o vosso preto, o vosso branco. Cada dia mais vós vos tornais monocromática e, nessas duas cores, mudais a minha visão de escrita.
Talvez, todos os dias, escrever-vos seja mudar a vossa imagem - ou mudar-me só a mim.

Sem comentários:

Enviar um comentário