Agora o mundo já não é mais o mesmo.

Deu-me um súbito ataque de saudades dos tempos em que a minha mãe, com a calma que sempre teve quando era mais nova, a passar-me a mão pelos cabelos enquanto dizia: Calma Mariana, isso passa, dorme um bocadinho... isso vai passar.
Hoje estas palavras parecem ter sido ditas por alguém que não é meu, alguém distante. Parecem nunca ter existo e terem ganho forma dentro de mim. Contudo, na ingenuidade e serenidade dos meus 7 e 8 anos, eram as palavras mais sábias que podia ouvir e, verdade seja dita que, quando dormia, tudo por magia passava: se me doesse a barriga, passava; se me doesse a cabeça, passava; se me doesse a perna, pelo aquele trambolhão que mandei, quando ia a correr para ir buscar a bola, passava. Era tudo mágico. Achava sempre que a minha mãe tinha poderes. Era bruxa, mas daquelas boas, que salvam os meninos das crueldades do mundo.
O mundo, nessa altura, é tão preciso e tão nosso que nunca o pomos em causa. O nosso mundo é as bonecas e saber o seu estado de saúde, saber se as barbies tiveram uma noite descansada, ou saber se o nenuco arrotou depois de lhe dar o biberão. Saber que os meus melhores amigos estavam bem. O resto era tudo sem importância, um mundo paralelo ao meu, mas muito distante. Talvez por isso a minha mãe tivesse sempre razão. Talvez por isso, nessa altura, tivesse toda a paz do mundo, energia para dar e vender.
Agora o mundo já não é mais o mesmo. A minha mãe deixou de ser a bruxa boa dos meus filmes. A minha serenidade deixou de ser. As minhas barbies foram de lua-de-mel definitiva, felizes com os seus maridos, enquanto os meus nenucos foram para a escola e são muito bons alunos. As minhas bonecas porém não sobreviveram e morreram em cinzas, na casa dos meus avós. O caixão delas foi o mais bonito que encontrei: um baú, daqueles secretos, cheio de pó.
Agora o mundo já não é mais o mesmo. Passou a ser uma complexidade de coisas, uma corda sem fim de responsabilidade (oh, que saudades dos dias em branco, subtis, abstractos). Hoje, o meu mundo é o calendário que tenho pregado na parede, com os testes, as férias, com os exames que tanto matam os meus nervos.
A minha paz e serenidade, apesar de nunca ver o seu estado de saúde, acabaram por falecer, longe, longe de mim. Ninguém sabe onde foram parar. Agora já não as tenho mais. Contudo, vivo bem os meus dias. Entre os tropeções entre as notas 10 e 20, e as faltas por justificar que já passaram do prazo, entre as horas de almoço que parecem sempre uma réstia de tempo, entre os intervalos que mal dá para contar o fim-de-semana ou aquele resumo do filme magnifico que vimos.
Agora o mundo já não é mais o mesmo, e as palavras da minha mãe vivem abafadas, entre o pouco tempo que tenho para dormir, entre o pouco tempo que estou com ela. Entre as dores que não tenho tempo nem paciência para ter. Agora já nada passa com o sono. O sono é que passa entre o tempo, sem que eu dê por ele.
Agora o mundo já não é mais o mesmo e, daqui por uns anos, será o oposto de tudo isto. É a lei natural da vida: o nosso mundo nunca mais volta a ser o mesmo. As nossas mães perdem o que dizem, entre o tempo que por elas passou e roubou as frases consoladoras e imaginativas. Nós próprios perdemos a capacidade de acreditar nelas, quando o dizem.
Agora o mundo já não é mais o mesmo.

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